António Leitão-Marques: “Sinto que esta homenagem é também para todos os que trabalharam comigo, pois sem eles nunca teria chegado tão longe”

António Leitão-Marques

António Leitão-Marques, primeiro presidente da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC), foi nomeado Sócio Honorário da Associação em novembro de 2023. Agora, passa em revista a sua carreira, desde o momento em que percebeu que queria exercer Medicina, à escolha da Cardiologia e, ainda, a previsão que faz para o futuro desta área. Mostra-se agradecido e honrado com a nomeação, deixando um conselho: “nunca se afastem do essencial desta profissão maravilhosa e do desejo de a praticar com qualidade”.

Sempre quis ser médico? Quando é que percebeu que a Medicina seria o seu futuro?

António Leitão-Marques (ALM) – Certamente fui influenciado pela profissão do meu pai, que era cirurgião em Quelimane, uma pequena cidade de Moçambique. Naquela altura, um médico era uma pessoa muito valiosa e de grande importância. No caso dele, tinha de resolver imensos problemas diferentes, desde uma cesariana a uma apendicite aguda ou uma fratura óssea, por exemplo. Não havia outros especialistas e não era fácil evacuar os doentes para outros hospitais, pois ficavam distantes e quase inacessíveis. A sua atividade despertava-me curiosidade e admiração e, ainda enquanto estudante liceal, fui vê-lo trabalhar algumas vezes. Por isso, acredito que, indiretamente, me encaminhou para a Medicina.

Que memórias guarda da época de início de carreira?

ALM – Terminei o curso de Medicina num momento em que a democracia chegou a Portugal com o 25 de abril. Um período de enormes expectativas e de grande esperança num futuro melhor. A memória mais importante que guardo do início de carreira foi, sem dúvida, a realização do Serviço Médico à Periferia quando, juntamente com um grupo de colegas, fui deslocado para o Avelal-Sátão no interior do país. Sem praticamente nenhuma experiência, mas muito entusiasmo, conseguimos assegurar os cuidados básicos e as urgências de uma pequena região, obrigando-nos a estudar e a resolver os problemas principais.

Porque é que optou por Cardiologia?

ALM – A Cardiologia foi realmente a minha primeira opção, mas a entrada na especialidade, tal como ainda hoje, dependia da nota de um teste de escolha múltipla muito competitivo. A semiologia e a fisiopatologia cardíaca tinham-me fascinado ao longo do curso e começavam a aparecer inovações para tratar doentes. Em Coimbra as unidades coronárias estavam a dar os primeiros passos, bem como a cirurgia cardíaca, de início destinada mais às doenças valvulares reumáticas. Foi uma opção fantástica pois, nos anos que se seguiram, vieram avanços extraordinários no tratamento de todas as doenças cardiovasculares e pude vivê-los intensamente.

Viveu cinco anos em Maputo, onde trabalhou como médico no hospital. Em que medida essa experiência influenciou a sua prática clínica?

ALM – A minha vivência em Moçambique de 2013 a 2018 teve lugar já numa fase final da minha carreira e foi a consequência de um projeto que começara muitos anos antes. Em 1996, na sequência de uma visita que realizei a Maputo, foi assinado um protocolo que nos permitia receber doentes em Coimbra daquele país que não tinha, na altura, recursos mínimos para os tratar. Mas, ao fim de poucos anos, constatámos que era necessário criar algo mais, nomeadamente condições que permitissem cuidar dos doentes localmente, evitando a sua deslocação a Portugal. Foi assim que nasceu o Instituto do Coração de Maputo (ICOR) um projeto coletivo que envolveu também colegas franceses e ingleses, para além de uma equipa moçambicana muito dinâmica. Criaram-se condições para fazer cirurgia cardíaca de congénitos e adultos e também Cardiologia de Intervenção com total segurança. Passámos a realizar missões periódicas ao ICOR envolvendo a cirurgia cardíaca dos HUC e Cardiologia do CHC, evitando que muitos doentes viessem a Portugal, iniciando-se, simultaneamente, a formação de jovens cardiologistas e cirurgiões cardíacos moçambicanos. Estes cinco anos mais recentes que vivi em Maputo, permitiram-me desfrutar já de uma instituição com excelentes equipas e pude ajudar a formação de dois cardiologistas de intervenção que realizam hoje, autonomamente, a maioria dos procedimentos, quer em crianças como em adultos.

Consegue identificar alguns momentos mais desafiantes da sua carreira?

ALM – Numa carreira longa vivemos sempre momentos desafiantes, mas também, por vezes exigentes e de algum sacrifício pessoal. Um dos momentos que reconheço importante foi o meu primeiro contacto com um Laboratório de Hemodinâmica que teve lugar em Madrid, em meados dos anos 80 e que me marcou muito. A tal ponto, que me prendeu para sempre a esta área da Cardiologia Invasiva. Outro momento desafiante foi, sem dúvida, abrir em 1996, a Unidade de Cardiologia de Intervenção do Centro Hospitalar de Coimbra e iniciar, com uma pequena equipa dedicada e cheia de entusiasmo, um projeto que viria a dar uma grande resposta às necessidades da região centro do país na área do cateterismo. Considero também muito relevante a altura em que esta atividade se alargou a Moçambique, país onde nasci e pelo qual tenho grande afeto. Para tal, em 2000 fundei em Coimbra a ONG Cadeia da Esperança que possibilitou deslocar equipas médicas em missões para ir tratar doentes ao Instituto do Coração de Maputo e mais a tarde a S. Tomé e Príncipe. A nomeação para Diretor de Serviço de Cardiologia em 2006, foi também, obviamente, um enorme desafio, permitindo-me fazer a renovação das suas instalações, criar uma Unidade de Cardiologia de Intervenção e Pacing, moderna e espaçosa e melhorar a Unidade Coronária. Toda esta renovação trouxe um ambiente de grande qualidade e muita motivação para todos os que lá trabalhavam. Foram anos inesquecíveis que marcaram muitos profissionais e deixaram recordações e amizades que perduram até hoje.

Falando especificamente da Cardiologia de Intervenção, quais os avanços desta área que destaca nos últimos anos e como prevê o seu futuro?

ALM – Tive a sorte, como vários colegas em Portugal, de viver a Cardiologia de Intervenção por dentro à medida que ela foi dando os seus grandes passos e de ajudar a introdução de algumas técnicas no nosso país, quando surgiram. É difícil citá-las todas, mas não posso esquecer o entusiasmo da implantação dos primeiros stents com fármaco e a grande expectativa que se criou com a possibilidade de conseguir reestenose zero! Também devo referir o encerramento das primeiras CIAs e FOPs, marcando, de algum modo, o início da intervenção estrutural. E, nos anos mais recentes, a Cardiologia de Intervenção deu outro salto fantástico com as TAVI que se estão a tornar uma terapêutica de grande relevância para os doentes mais idosos ou de maior risco cirúrgico. A Cardiologia de Intervenção é, sem dúvida, uma das áreas mais fascinantes da medicina moderna, com uma enorme evolução em pouco anos, estendendo-se hoje praticamente a todas as patologias e trazendo recursos únicos para o tratamento das doenças cardiovasculares. É difícil prever o seu futuro e os novos desafios. Mas julgo que o espírito será sempre o mesmo que marcou o seu início: tratar os doentes de forma menos invasiva, diminuindo o risco das intervenções e procurando, ao mesmo tempo, soluções de grande qualidade, adequadas a cada caso.

A fotografia é uma grande paixão sua. Quando e como começou a fotografar e de que forma ela influencia o seu olhar sobre o mundo?

ALM – Viajar e fotografar são dois atos que fizeram sempre parte da minha vida. A fotografia é um pouco a minha segunda memória e dificilmente passaria sem ela. Não creio que haja algum sítio do mundo em que tenha estado, onde não me tenha interessado em fotografar os lugares e as pessoas que neles vivem. E sempre guardei as imagens, organizando-as com a preocupação de as rever o que, de algum modo, me tem permitido ter uma melhor consciência do mundo em que vivi. Uma boa fotografia isoladamente vale pouco. Vivemos numa época onde a aquisição da imagem se tornou fácil e acessível em qualquer lugar, principalmente à custa dos telemóveis. Mas onde também a imagem se banalizou e se tornou muitas vezes redundante e superficial. Quem se interessa pela fotografia deve procurar ir mais longe, educar o olhar, tentar ver de acordo com a sua sensibilidade aquilo que o rodeia e, com isso, criar pequenos projetos pessoais.

Em 2023, foi nomeado Sócio Honorário da APIC. O que é que esta distinção significa para si? Que mensagem gostaria de deixar?

ALM – Esta nomeação começou por ser uma surpresa absoluta, de que só me dei conta no próprio momento em que foi anunciada. Tinha sido o 1.º Presidente da APIC, mas isso não era motivo para um gesto tão nobre e gratificante, por parte da atual direção da nossa Associação. Foi uma distinção que me honrou muito e comoveu, especialmente pelos testemunhos que os colegas deixaram. Muitas vezes não nos apercebemos como influenciamos os outros e as suas carreiras. Sinto que esta homenagem é também para todos os que trabalharam comigo, pois sem eles nunca teria chegado tão longe. Foi bom ter deixado um Serviço que se tem continuado a valorizar, e ver jovens cardiologistas de intervenção a trabalhar com altíssima qualidade e com inovação em muitas áreas. Não ignoro que a Medicina em Portugal atravessa atualmente um momento difícil, muito em especial para os jovens médicos. Mas, se algum conselho posso deixar, é que nunca se afastem do essencial desta profissão maravilhosa e do desejo de a praticar com qualidade. Um dia sentirão orgulho do que fizeram e um grande bem-estar ao recordar todas as pessoas que trataram.