“A radial distal é um acesso alternativo à radial convencional” – Entrevista a Hugo Vinhas

D@LC Acesso Radial Distal Hospital Faro

Entrevista a Hugo Vinhas, coordenador do Centro de Cardiologia de Intervenção do Centro Hospitalar Universitário do Algarve

“Acesso Radial Distal” é o tema do próximo Day at the Cat Lab, que se vai realizar já no próximo dia 9 de junho, no Centro de Cardiologia de Intervenção do Hospital de Faro, que acumula já uma grande experiência na realização desta técnica. O coordenador do centro, Hugo Vinhas, lamenta que este acesso seja ainda muito pouco utilizado pelos cardiologistas de intervenção e alerta para o facto de ser uma alternativa à radial convencional.

 

Qual a razão da escolha do tema “Acesso Radial Distal” para este Day at the Cat Lab?
Hugo Vinhas (HV) – A ideia de fazer este Day at the Cat Lab com o tema da radial distal, partiu precisamente do convite da APIC, dado tratar-se de um acesso alternativo à artéria radial e a experiência que o nosso Centro tem na realização desta técnica.

 

Qual a importância da abordagem deste tema? Existem muitas inovações na área?
HV – De forma geral, trata-se de um acesso muito pouco utilizado pelos cardiologistas de intervenção, devido à maior curva de aprendizagem e à perceção geral, quanto a mim errada, de que não acrescenta nada de novo ao acesso radial convencional.

A meu ver existem algumas razões para a utilização deste acesso, que levaram que este seja, desde há mais de 2 anos, o meu acesso radial preferencial:
A primeira prende-se com o facto da utilização da artéria radial poder associar-se à oclusão da mesma. Na maior parte dos doentes é assintomática, mas inviabiliza a reutilização desse mesmo acesso em futuros procedimentos. Em caso de oclusão da artéria radial distal, existe ainda a radial convencional para se poder utilizar.

Por outro lado, a utilização da artéria radial distal em caso de oclusão da mesma, não compromete a circulação arterial da mão, dado que a arcada palmar superficial fica intacta, mesmo quando a artéria cubital está pouco desenvolvida.

Um terceiro motivo, relacionado com o primeiro ponto, prende-se com o facto de existirem doentes coronários com doença renal crónica, que poderão vir a necessitar da artéria radial para construção de fistulas para hemodiálise. Em caso de utilização da artéria radial distal para procedimentos cardíacos, se esta ocluir, existem mais garantias da permeabilidade da artéria radial convencional para as referidas fistulas.

Devo referir que este acesso me permite a utilização dos mesmos cateteres que utilizo na artéria radial normal e, consequentemente, a realização dos procedimentos coronários com a mesma complexidade que a artéria radial permite, tal como utilização de cateteres 7F, tratamento de oclusões crónicas, bifurcações, aterectomia rotacional, entre outros.

 

Quais os principais desafios desta técnica, para além do facto de ser ainda muito pouco utilizada pelos cardiologistas de intervenção?
HV – De facto, o principal desafio para a utilização da técnica é convencer os colegas a começar a utilizá-la e a não desistir nas primeiras tentativas. Efetivamente, o diâmetro da artéria radial distal é mais pequeno, trata-se de uma zona mais sensível e, consequentemente, obriga a uma anestesia local mais generosa, que pode alterar um pouco a anatomia local.

 

Quais as suas expectativas para este Day at the Cath Lab?
HV – As minhas expectativas para este encontro são, sobretudo, a possibilidade de divulgar a técnica, demonstrando a exequibilidade da mesma nos doentes do dia a dia. Aliás, não é minha intenção escolher os doentes para esse Day at the Cath Lab.

 

É coordenador do Centro de Cardiologia de Intervenção do Centro Hospitalar Universitário do Algarve desde 2018. Quais têm sido os seus principais objetivos?
HV – Este é o único centro público de Cardiologia de Intervenção do Algarve que assegura o funcionamento da Via Verde Coronária, de toda a região do Algarve e Baixo Alentejo.

O centro foi criado em 2003. Assumi atividade em outubro de 2018, tendo como preocupação responder às necessidades reais da população residente e sazonal do Algarve, de forma a aumentar e a melhorar a acessibilidade e a qualidade do tratamento da doença coronária.

No ano de 2019, quase triplicámos o número de angioplastias realizadas nos anos anteriores e, em 2020, apesar da pandemia, realizámos o mesmo número de angioplastias do ano anterior.

Trata-se de um centro que realiza quase uma centena de angioplastias de oclusões crónicas, constituindo-se como o centro com maior experiência nesta área a nível nacional.

Um dos meus objetivos é assegurar a formação dos cardiologistas de intervenção do próprio centro. Estamos no bom caminho, sendo expectável que, num período de dois a três anos, a equipa seja constituída por três cardiologistas de intervenção autónomos.

 

Projetos futuros?
HV – Em breve, esperamos ter condições para avançar na área estrutural, nomeadamente no encerramento de apêndice auricular e FOP. Trata-se de uma prioridade nossa, para que a população do Algarve possa ter o mesmo acesso ao tratamento que os doentes de outras regiões do país, tal como já acontece no tratamento da doença coronária.

Existe motivação e vontade para ultrapassar as adversidades que encontramos ao desenvolver novos projetos, num centro hospitalar com recursos materiais e humanos muito limitados.