Entrevista a Manuel de Sousa Almeida, responsável pela Unidade de Intervenção Cardiovascular do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental (CHLO) e pelo Centro de Referência.
O Hospital de Santa Cruz/CHLO vai ser a próxima instituição a receber mais uma edição da ação formativa Day at the Cath Lab (D@CL). Manuel de Sousa Almeida, responsável pela Unidade de Intervenção Cardiovascular do CHLO e pelo Centro de Referência fala da importância de se abordar esta técnica e de se tratar adequadamente todas as válvulas do nosso coração.
Qual a razão da escolha do tema “T.A.V.I. – Todas As Válvulas (são) Importantes?” para este D@CL?
Manuel de Sousa Almeida (MSA) – Todas as válvulas do nosso coração são importantes. Quando uma deixa de funcionar de forma adequada traz sintomas, sofrimento, limitação na qualidade de vida do doente e do seu prognóstico.
Uma vez efetuado o diagnóstico, carecem de tratamento adequado para evitar ou minorar todas as complicações atrás referidas. Até muito recentemente e salvo raras exceções, que é o caso da valvuloplastia mitral de balão, o único tratamento disponível para tratar as formas mais severas de disfunção valvular, era a cirurgia de reparação ou substituição da válvula por uma prótese. Pela sua complexidade e risco associado, muitos doentes frágeis, pela idade avançada ou por padecerem de outras doenças concomitantes, eram excluídos desta modalidade terapêutica, pelo risco muito elevado de morte ou complicação.
Foi neste último contexto que começaram a surgir alternativas de tratamento menos invasivas e com menor risco de complicações, habitualmente executadas por via percutânea.
A técnica que teve maior projeção, por ser a primeira (Alain Cribier 2002) e pela eficácia e segurança que revelou desde início, foi a substituição transcateter da estenose aórtica, vulgo TAVI. Outras se seguiram, e, atualmente, todas as quatros válvulas importantes do nosso coração podem ser tratadas de forma adequada por via transcateter, em alternativa à cirurgia.
Qual a importância da abordagem deste tema? Existem muitas inovações na área?
MSA – A importância de falarmos e divulgarmos este tema é por ser uma causa muito importante de insuficiência cardíaca e por aumentar de frequência com a idade, afetando de forma significativa a capacidade funcional senão o prognóstico dos doentes, e frequentemente é a principal ou a única causa, pelo que o seu tratamento adequado tem o potencial de devolver a sua vida normal.
Outra razão pertinente para falar deste tema, prende-se com o facto de ser um tratamento relativamente caro, e digo relativamente, porque habitualmente só olhamos para o custo direto da prótese e esquecemos todos os outros custos diretos e indiretos que se associam ao não tratamento destes doentes ou aos tratamentos alternativos, aspeto que ainda não foi devidamente trabalhado em Portugal.
Este custo e o peso que pode representar para o orçamento dos hospitais, pode levar a que haja restrições na disponibilidade de próteses e impedir um tratamento adequado e atempado. Felizmente não é esta a realidade do CHLO, onde a sua administração tem sido sensível a estas necessidades.
Há muitas inovações, algumas relacionadas com melhorias iterativas dos dispositivos existentes, tornando-os mais eficazes, seguros e simples de usar, outras, que considero igualmente importantes relacionam-se com novas técnicas para avaliar os doentes e para implantar os dispositivos, simplificando os processos.
E os desafios?
MSA – O grande desafio das Unidades de Intervenção Cardiovascular modernas, é sem dúvida, logístico. É o desafio de acomodar toda a enorme procura destes tratamentos em doentes complexos, frágeis, com doença por vezes critica, com protocolos de avaliação complexos – com necessidade de AngioCT, de ecocardiografia de intervenção e de múltiplos pareceres técnicos de múltiplas especialidades -, ou seja, de estabelecer e operacionalizar os Heart Teams. De seguir e controlar todo o processo de avaliação até à implantação da prótese e garantir o seguimento do doente, para evitar atrasos desnecessários. Mantendo em simultâneo a atividade coronária e o apoio às urgências.
São necessários operadores altamente diferenciados, com competências muito para além da angioplastia coronária. Devem adquirir competências em imagiologia (AngioCT) em intervenção periférica. Estamos a lidar com acessos vasculares de grande calibre em doentes frágeis, combinação perfeita para complicações vasculares, que podem por facilmente em causa o sucesso do programa.
A Unidade de Intervenção Cardiovascular do CHLO (UNICARV) tem procurado assegurar a formação de operadores em intervenção estrutural, para garantir uma resposta adequada ao enorme crescimento de intervenções estruturais, atualmente somos oito operadores com autonomia neste tipo de intervenções e esperamos implantar aproximadamente 200 próteses aórticas por via percutânea, em 2021, a que acresce as intervenções na válvula mitral, tricúspide e pulmonar.
É claro que beneficiamos da disponibilidade de um aparelho de AngioCT e de RMN muito dedicados à Cardiologia, e esperamos, em breve, poder dispor de mais salas equipadas para a intervenção estrutural, aspetos muito importantes para centros de elevado volume.
Quais as suas expectativas para este Day at the Cath Lab?
MSA – O D@CL é uma oportunidade para partilhar conhecimentos, técnicas, experiências e modos de fazer diferentes, alguns dos quais pela sua inovação podemos importar para a nossa prática pessoal ou mesmo integrar na prática dos nossos laboratórios. É dar seguimento a uma forma de ensinar e de aprender que é o core da nossa formação como médicos e, principalmente, como cardiologistas de intervenção. É de facto uma excelente iniciativa da APIC, para continuar.
É responsável pela Unidade de Intervenção Cardiovascular do CHLO desde 2008. Quais têm sido os seus principais objetivos e desafios?
MSA – Dirijo o laboratório desde 2008, no seguimento do Dr. Francisco Pereira Machado, em espírito de equipa com os “seniores” Rui Campante Teles, Henrique Mesquita Gabriel, Pedro Gonçalves, Luis Raposo, João Brito, Sílvio Leal e, mais recentemente, Eduardo Oliveira, a quem devo acrescentar Sérgio Madeira e Nelson Vale e, ainda, os “fellows” Mariana Gonçalves e Afonso Oliveira.
Não posso deixar de incluir toda a Cirurgia Cardiotorácica, particularmente os Drs. José Pedro Neves (Diretor), Tiago Nolasco e Márcio Madeira (cirurgiões Intervencionistas), que deram, e dão, um apoio incondicional a todo este projeto.
Projetos futuros?
MSA – São muitos, mas terão que passar necessariamente pela organização logística, pela gestão responsável de custos, pela avaliação de outcomes, pela qualidade, pela formação institucionalizada e pelo estabelecimento de parcerias com outras instituições (hospitalares) num funcionamento em rede.
Em meu nome, em nome do Dr. Rui Campante Teles, responsável pelo Programa Estrutural, e de toda a Unidade, o nosso muito obrigado à APIC pela oportunidade.


