“O RNCI é o expoente máximo da APIC, em paralelo com a reunião anual, em termos de visibilidade e estratégia” – Entrevista a Rui Campante Teles

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Rui Campante Teles, que transmitiu, recentemente, a função de coordenador do RNCI, faz um balanço muito positivo destes seus últimos quatro anos. Apesar de saber que há ainda muito por fazer, o cardiologista de intervenção considera que o registo “é o expoente máximo da APIC, em paralelo com a reunião anual”. Esta ferramenta veio trazer “união e cooperação” à comunidade cardiológica portuguesa e, com ela, visibilidade em termos de investigação nacional e internacional, entre muitos outros aspetos.

 

O RNCI está próximo de fazer 20 anos. Qual o papel e a importância desta ferramenta no que respeita ao desenvolvimento da Cardiologia de Intervenção portuguesa, assim como da investigação nesta área?

Rui Campante Teles (RCT) –  Exatamente, está próximo de fazer 20 anos. Foi criado em 2002. Tem sido o expoente máximo da APIC, em paralelo com a sua reunião anual, em termos de visibilidade e de importância estratégica, dentro do que é uma associação especializada da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Sob o ponto de vista do simbolismo, mostra que a comunidade da Cardiologia de Intervenção está agregada, que colabora proativamente e de uma forma voluntária, coordenada e com os seguintes objetivos principais: primeiro, conhecer a realidade nacional da nossa área; segundo, melhorar essa qualidade, por um lado através da investigação científica, por outro do benchmark, que o RNCI possibilita a cada centro. Permite-lhes comparar os seus dados com os nacionais, possibilitando uma análise crítica da sua atividade, de forma despida de emoção, de maneira a avaliarem o seu percurso objetivamente. Estas vertentes da investigação e da promoção da qualidade são as duas principais consequências do registo.

O RNCI é estratégico, tanto em Portugal, como em termos de visibilidade internacional. Temos tido oportunidade de fazer publicações à sua custa. Mas, sobretudo, temos tido capacidade de nos projetar para registos cooperativos, no âmbito da Associação Europeia de Cardiologia de Intervenção Percutânea da Sociedade Europeia de Cardiologia (EAPCI).

O registo tem vindo a evoluir muito nos últimos anos. Qual é o balanço que faz e os aspetos que destaca? Será esta questão da união da Cardiologia de Intervenção de que começou por falar?

RCT – É! A união, a agregação e a cooperação. O objetivo do registo é muito ambicioso. Visa incluir todos os casos que são feitos em Portugal, através de um equilíbrio de variáveis adequado e com relevância, com definições aceites por todos os operadores em Portugal. Isto, de forma anónima e confidencial e sob a égide de um regulamento e da Comissão Científica, criada após a reformulação do regulamento, em 2015.

Essa Comissão Científica, que eu presidi desde 2017, tem possibilitado um aumento qualitativo e quantitativo da utilidade do registo.

Quando me pergunta quais são os resultados do trabalho desenvolvido nestes quatro anos e, particularmente, nos dois últimos anos, respondo que o primeiro objetivo alcançado foi de extrema importância: a reformulação das variáveis do RNCI.

No que respeita ao RNCI de coronárias, as variáveis que tinham sido introduzidas em 2002, foram totalmente atualizadas pela comissão científica que, agora, terminou funções, e que as organizou em três categorias: obrigatórias, principais e facultativas.

Esta revisão foi incorporada nos vários softwares, a partir deste ano, e está ativa, dotando de uma enorme modernidade o RNCI das coronárias.

Por outro lado, foi criado um RNCI de coronárias dedicado às oclusões crónicas totais, um sub-registo de extrema importância. Foi feito um trabalho muito importante, liderado pela Dr.ª Joana Delgado Silva, com a participação do Dr. Pedro Cardoso e do Dr. João Brum Silveira.

Além disto, este ano, o Registo Nacional das Válvulas Percutâneas foi revisto, também em termos de variáveis, e está a servir de base para a participação da APIC e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, no Euro Observation Research Program (EORP) da Sociedade Europeia de Cardiologia. Eu estou a representar a EAPCI na reformulação dos dados, que constam deste registo a nível Europeu.

Finalmente, constituímos a base das variáveis do RNCI do encerramento do apêndice auricular esquerdo. É um trabalho que está em curso e que foi criado com a ajuda do Dr. Lino Santos e do Dr. Marco Costa, além de mim próprio.

Estas três reformulações – coronárias, válvulas percutâneas e apêndice auricular – foram conseguidas.

Mas tinham outras áreas prioritárias…

RCT – Sim, a nossa segunda prioridade e objetivo foi dar suporte aos pedidos dos investigadores, para que pudessem desenvolver trabalhos, com base nos dados do registo. Foi constituída e organizada uma comissão científica, que apreciou os trabalhos, aprovou e deu cotação às várias propostas, para que os registos fossem, de facto, úteis para a investigação em Portugal.

Além disso e muitíssimo importante, foi determinado um consenso de regras de autoria dos termos do regulamento do próprio registo, para assegurar justiça na forma como os vários elementos, que participam nos trabalhos, são enumerados e ordenados. É das situações mais ingratas e, assim sendo, este consenso foi extremamente importante e uma das prioridades da Comissão Científica enquadrada na prioridade da investigação.

A terceira prioridade foi dar suporte a todos os centros que precisaram de plataformas de software, para exportação dos seus dados de coronárias e de válvulas aórticas percutâneas. Hoje em dia, em Portugal, a maior parte dos centros dispõe de um software, o Cardiobase. Foi dado suporte total aos hospitais públicos, como foi o caso do Hospital de São João, no Porto, e do Hospital de Faro, no Algarve; e parcial aos hospitais privados, como o Hospital Cuf Porto e o Hospital Cruz Vermelha Portuguesa, em Lisboa, que, no fundo, também, tiveram suporte de software, para poderem participar no registo.

Finalmente, a outra prioridade passou por apoiar a visão da Direção da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, na candidatura ao projeto Euro Heart. Lançámos as bases para um projeto europeu de cooperação, na área da Intervenção Coronária Percutânea, a partir de julho de 2020, que está em pleno desenvolvimento e que vai ter continuidade com a atual Comissão Científica.

Mas, há mais áreas que importa referir: a importância estratégica do conhecimento dos dados, para que a Direção da APIC possa cooperar com a Sociedade Europeia de Cardiologia; preparar as reuniões científicas nacionais e, no fundo, ter dados para poder dialogar com a Tutela e com os decisores políticos, a propósito da Cardiologia de Intervenção em Portugal. Esta área de influência e conhecimento é muito especial, porque somos uma área exemplar dentro das várias estruturas, como o Serviço Nacional de Saúde, a SPMS e o Infarmed, onde temos um prestígio muito grande, pelo registo que desenvolvemos.

De forma geral, enumerei as principais prioridades e que, sumarizando, são a reformulação dos vários registos e das variáveis; a investigação e regras de autorias; o suporte aos centros com doação de software; a cooperação com a Direção da SPC; e o suporte à Direção da APIC, para influência estratégica na Sociedade Portuguesa de Cardiologia com a Tutela.

O ano passado, com base no registo, percebemos que o número de angioplastias coronárias cresceu 9,8 por cento e que o volume nacional de implantes valvulares aumentou 2,3 por cento.

Neste período, foram submetidas 18 propostas de investigação para avaliação; publicados dois artigos nacionais; e apresentados vários dados de sobre intervenção coronária e estrutural nas reuniões da APIC, VAP-APIC e Congresso Português de Cardiologia.

Fomos, globalmente, bem sucedidos no que respeita aos objetivos. Obviamente, existem áreas que precisamos melhorar, designadamente o seguimento dos doentes e a conexão com o estado vital automático; a auditoria do próprio registo; e, finalmente, a implementação do registo em outras áreas, por exemplo, o foramen oval patente.

São estes os desafios que se colocam à atual coordenação?

RCT – Os desafios são melhorar a publicação internacional; retomar o benchmark, que foi suspenso devido à covid-19; automatizar o RNCI das válvulas aórticas percutâneas em todos os centros; implementar o registo do apêndice auricular esquerdo; conseguir alcançar o estado vital automático; desenvolver auditoria por centro; e, no fundo também, divulgar o registo junto dos nossos parceiros científicos, institucionais e patrocinadores.

Além do que já nos disse, o que é que os números do registo nos indicam?

RCT – Sobretudo dois aspetos: que a capacidade que temos em Portugal é, realmente, fantástica e a adesão de todos os centros nacionais a este projeto;  que a atividade contemporânea tem grandes desafios em termos de quantidade, porque tem havido, pelo menos, uma contração da atividade da intervenção coronária, em favor da intervenção da atividade estrutural. Isso reflete limitações nos recursos humanos disponíveis em Portugal, assim como no número de salas.

Ou seja, o registo mostra que há lacunas, quer em termos de recursos humanos, quer de estruturas, que têm de ser resolvidas, para podermos crescer ao ritmo que a inovação e o aumento da longevidade dos portugueses exige.

Foi coordenador do RNCI durante quatro anos, correto? O que levou a assumir este cargo?

RCT – A noção da extrema importância estratégica para a investigação e para a qualidade da Cardiologia de Intervenção nacional. Como já referi, havia um enorme desafio que era criar uma cooperação e agregação entre toda a  comunidade cardiológica nacional. O registo é um elemento de união, que foi o meu mote desde que assumi o cargo de presidente da APIC. Sempre tive como propósito promover a união e a cooperação, numa linha evolutiva do passado. No fundo, para conseguirmos que Portugal fosse mais longe e tivesse mais visibilidade e prestígio. É o que estamos a ter, a visão a nível europeu é completamente diferente. O objetivo era fazer da união a nossa força.

Sai com o sentimento de missão cumprida?

RCVT –  Sim, saio com o sentimento de missão cumprida e com a certeza de que o registo, ainda, tem muito para dar no futuro, felizmente. É uma missão contínua. O que aí vem deixa-me muito feliz, porque sei que continua a ser uma prioridade da APIC, que está entregue a pessoas com muita capacidade.

Para terminar, quero agradecer a toda a Comissão Científica que me acompanhou nestes dois últimos anos, nas pessoas dos Drs. André Luz, António Fiarresga, Bruno Silva, David Neves, Filipe Seixo, Joana Delgado Silva, João Silva Marques, Luís Raposo, Miguel Santos, Pedro de Araújo Gonçalves, Pedro Sousa e Rita Cale, assim como à Direção da APIC e à Comissão Científica Nacional. Endereço à nova Comissão Científica, presidida pelo Dr. Pedro Jerónimo de Sousa, um voto parabéns e de confiança. Tenho a certeza que tudo o que ainda está por fazer vai ser superado e melhorado por esta nova comissão.