Na 17.ª Reunião Anual da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC), que se realiza entre os dias 12 e 14 de novembro, a discussão de casos e a participação da audiência ganham um papel central, num programa que procura aproximar diferentes gerações e promover a partilha de experiências.
João Silva Marques, presidente da reunião, apresenta as principais opções que orientaram esta edição, destacando também algumas das áreas que estarão em discussão, como o lifetime management, a intervenção estrutural e coronária, as técnicas complexas, a simulação, a inteligência artificial e a Medicina personalizada. O objetivo, sublinha, é que os participantes saiam da reunião com conhecimento que possam aplicar na prática e com um maior sentido de comunidade dentro da Cardiologia de Intervenção em Portugal.
A 17.ª Reunião Anual da APIC está prestes a acontecer. Quais são, para si, os principais temas que vão marcar esta edição e o que a distingue das anteriores?
João Silva Marques (JSM) – Este ano quisemos dar ainda mais espaço à discussão de casos, de problemas clínicos e das decisões que fazem parte da nossa prática. Para isso, reduzimos o número de sessões simultâneas, concentrámos grande parte do programa numa sala principal e procurámos maximizar o tempo dedicado à discussão. As apresentações serão tendencialmente mais curtas e vamos pedir também um esforço adicional aos palestrantes para serem particularmente objetivos e deixarem espaço para a interação com a audiência. Esta opção implica naturalmente um menor número de participações por convite formal, mas não significa uma menor participação na reunião. Pelo contrário: queremos passar de um modelo muito centrado em quem está no palco para um modelo em que todos os que estão na sala possam contribuir com a sua experiência e conhecimento. Mantemos simultaneamente a aposta em formatos didáticos inovadores, que permitam mostrar o que de melhor se faz em Portugal e criar oportunidades de aprendizagem, partilha de experiências e desenvolvimento da nossa comunidade.
A intervenção cardiovascular tem evoluído rapidamente, com novas técnicas, dispositivos e estratégias terapêuticas. Quais são hoje as principais áreas de inovação que estão a transformar a prática clínica?
JSM – A inovação em Cardiologia de Intervenção já não acontece apenas através do aparecimento de um novo dispositivo. Cada vez mais resulta da combinação entre uma melhor seleção dos doentes, planeamento mais preciso, novas modalidades de imagem, evolução das técnicas de intervenção e capacidade de escolher uma estratégia não apenas para resolver o problema imediato, mas tendo em consideração aquilo de que o doente poderá necessitar no futuro. Isso é particularmente evidente na intervenção estrutural, com a evolução da TAVI e das intervenções mitral e tricúspide, mas também na intervenção coronária, com novas estratégias de revascularização, maior utilização da imagem intracoronária, novas tecnologias para tratamento de lesões complexas e alternativas aos implantes metálicos permanentes. O planeamento avançado, a simulação e as tecnologias digitais estão também progressivamente a alterar a forma como preparamos os procedimentos, os executamos e ensinamos as novas gerações a realizá-los.
Que novidades científicas ou tecnológicas previstas no programa considera que poderão ter maior impacto na prática dos cardiologistas de intervenção nos próximos anos?
JSM – Um dos conceitos que me parece mais importante é o de lifetime management. Na TAVI, já não podemos pensar apenas em realizar bem o primeiro procedimento: é necessário perceber como a escolha da primeira válvula e a forma como é implantada podem condicionar intervenções futuras. Na doença coronária estamos a assistir a uma evolução semelhante. Aos stents farmacológicos juntam-se os balões revestidos por fármaco e novas plataformas bioabsorvíveis, e estamos progressivamente a perceber qual deve ser o papel de cada uma destas ferramentas no tratamento do doente ao longo da vida.
O desafio será cada vez menos escolher uma tecnologia isoladamente e cada vez mais construir a estratégia mais adequada para aquele doente, aquela lesão e aquele momento da sua doença. Outra área importante é a difusão das técnicas avançadas de angioplastia complexa, nomeadamente no tratamento das oclusões coronárias crónicas. Não considero que o conhecimento destas técnicas deva ficar restrito a um pequeno grupo de intervencionistas.
Os casos mais complexos devem naturalmente ser concentrados em centros e operadores experientes e dedicados, mas existem técnicas e princípios desenvolvidos neste contexto que podem ser extremamente úteis na prática quotidiana de qualquer cardiologista de intervenção. É igualmente importante que todos conheçam as possibilidades atuais da angioplastia quando realizada por equipas com experiência específica, até para saber quando e para onde referenciar um doente. É precisamente aqui que a simulação pode acrescentar muito. Não será utilizada apenas para demonstrar uma técnica, mas como ponto de partida para comparar estratégias, antecipar dificuldades e compreender os gestos técnicos e os momentos de decisão que podem fazer a diferença num procedimento complexo.
A inteligência artificial e a Medicina personalizada estão a ganhar um espaço cada vez maior em várias especialidades médicas. Esta é também uma realidade na Cardiologia de Intervenção? Como será o debate sobre esta temática na Reunião Anual da APIC?
JSM – É uma realidade crescente, mas nesta fase muitas das utilizações da inteligência artificial em Cardiologia de Intervenção são ainda pontuais ou surgem integradas nas ferramentas que já utilizamos no dia a dia, por exemplo na análise de imagem, quantificação, planeamento ou apoio à realização de determinados procedimentos. Por esse motivo, optámos por não criar nesta edição uma sessão especificamente dedicada à inteligência artificial. Preferimos que estas tecnologias apareçam de forma natural ao longo das diferentes sessões, sempre que acrescentam valor ao problema clínico que está a ser discutido. Parece-nos mais útil discutir uma ferramenta no contexto em que efetivamente pode ajudar a tomar uma decisão do que abordar a inteligência artificial como um tema isolado. O mesmo princípio se aplica à Medicina personalizada.
Cada vez mais procuramos responder não apenas à pergunta “qual é o melhor dispositivo?”, mas “qual é a melhor estratégia para este doente, com esta anatomia e tendo em conta aquilo de que poderá necessitar no futuro?”. Essa individualização da decisão atravessa grande parte do programa.
Que importância assume esta reunião para a formação e atualização dos especialistas, mas também para a aproximação entre diferentes gerações de cardiologistas de intervenção?
JSM – A Cardiologia de Intervenção é uma área muito tecnológica, mas existe uma componente de experiência e de raciocínio que não se transmite apenas através de uma apresentação ou de um artigo científico. É preciso discutir casos, perceber por que razão alguém tomou determinada decisão, quais as alternativas que considerou e o que faria perante diferentes cenários. Foi também por isso que apostámos em sessões de simulação com uma componente fortemente didática, pensadas simultaneamente para quem já tem experiência e para quem está a dar os primeiros passos em áreas complexas como TAVI ou CTO.
Queremos criar um ambiente em que diferentes gerações possam aprender umas com as outras. A colaboração com os jovens da APIC e da EAPCI e a existência de sessões dirigidas também a enfermeiros e técnicos reforçam essa ideia de uma comunidade alargada.
O que é que espera que os participantes retirem desta 17.ª Reunião Anual da APIC?
JSM – Gostaria que saíssem da reunião não apenas com informação nova, mas com conhecimento que consigam aplicar na prática. Que levem novas formas de olhar para um problema, alternativas para situações difíceis e uma melhor compreensão do racional por detrás de determinadas estratégias. Mas gostaria também que levassem a sensação de terem participado verdadeiramente na reunião. A APIC deve ser um espaço de encontro da comunidade, de partilha entre centros, entre diferentes gerações e entre os vários profissionais envolvidos no tratamento destes doentes. Haverá também espaço para discutir a organização dos cuidados, a investigação colaborativa e aquilo que queremos construir para o futuro da APIC.
A ambição é que a reunião contribua não apenas para atualizar conhecimentos, mas também para desenvolver e aproximar a comunidade da Cardiologia de Intervenção em Portugal.


