“O atual desafio do RNCI é sensibilizar os profissionais dos laboratórios de hemodinâmica para a importância do preenchimento das bases de dados” – Entrevista a André Luz

RNCI

O Registo Nacional de Cardiologia (RNCI) é um projeto desenvolvido pela Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC), que objetiva coletar de forma contínua os dados associados à Cardiologia de Intervenção em território nacional. O cardiologista André Luz, responsável pela iniciativa nos próximos dois anos, revelou mais sobre os moldes que irão estruturar esta mobilização junto dos laboratórios de hemodinâmica.

Foi nomeado Coordenador do RNCI para o biénio 2023/2025. Qual a sua visão do RNCI?

André Luz (AL) – A minha visão do RNCI, e penso que será a da grande maioria, se não de todos os cardiologistas de intervenção nacionais, é a de que este é o produto da nossa atividade nacional e por conseguinte deve ser continuamente melhorada e atualizada.  Considero um ativo de valor inestimável, provavelmente único no panorama da Medicina portuguesa, que agrega um espetro alargado de tudo aquilo que se produz nos laboratórios de hemodinâmica nacionais.

Quais os principais objetivos traçados para este biénio?

AL – Quando as nossas congéneres europeias nos solicitam os dados relativos à atividade de cardiologia de intervenção nacional, por vezes é difícil enviar os nossos números, o que deveria ser feito de forma automática se o preenchimento das bases de dados fosse completa. Isto é particularmente relevante nas variáveis que compõem a via verde coronária (tratamento dos síndromes coronários agudos), que é uma informação particularmente sensível para todos os intervenientes, incluindo decisores políticos e público em geral. Os nossos principais objetivos serão, em primeiro lugar, melhorar o preenchimento das variáveis relacionadas com os síndromes coronários agudos (nomeadamente na caracterização do tempo de isquemia até ao cateterismo) e harmonizar o maior número de variáveis possível com os registos europeus.

Quais considera serem os principais desafios atuais e futuros do RNCI?

AL – Se o RNCI fosse explorado na sua plenitude à semelhança de alguns registos europeus, o passo seguinte seria o follow-up dos doentes intervencionados, a instituição de auditorias externas ao registo e a sua publicação periódica. Isso seria elevar o RNCI a um patamar muito mais elevado, mas irrealista nesta fase. Por isso considero que mais vale melhorar o que temos. O atual desafio do RNCI é sensibilizar os profissionais dos laboratórios de hemodinâmica para a importância do preenchimento das bases de dados que são depois exportadas para o RNCI, especialmente no que concerne à intervenção coronária que é ainda o “core business” dos laboratórios de hemodinâmica.

A última reunião que tivemos com os responsáveis dos laboratórios foi muito produtiva, penso que todos percebemos que é obrigatório dar um passo em frente no sentido da qualidade. Isto apenas será possível com a ajuda de todos. Outro desafio constante é ainda atualizar o RNCI às diversas modalidades terapêuticas que vão aparecendo, como é o caso da intervenção não coronária. Isto exige um esforço de partilha de conhecimentos, proveniente dos vários centros que se têm dedicando a procedimentos mais raros (como a intervenção pulmonar ou tricúspide) que importa agregar no RNCI. Somos um país relativamente pequeno;  por isso o RNCI pode e deve ser uma ferramenta que ofereça uma visão panorâmica do que fazemos (e fazemos bem), com escala e em paridade com os registos europeus.