António Fiarresga, investigador principal português do Atrial Fibrillation in the Real world of Interventional Cardiology (AFRICA), explica em que consiste esta investigação, que tem como objetivo avaliar a forma como a Cardiologia está a implementar a estratégia antitrombótica em doentes com fibrilhação auricular e submetidos a intervenção coronária, assim como os seus resultados no mundo real.
Segundo o investigador, trata-se de um estudo muito oportuno, que, tal como espera, “poderá dar um contributo significativo para a investigação a nível mundial”.
Qual a importância de se realizar o estudo AFRICA? A que necessidades pretende responder?
António Fiarresga (AF) – A fibrilhação auricular e a doença coronária são duas das patologias mais frequentes em Cardiologia e estão, também, interligadas na sua fisiopatologia. É comum os doentes com intervenção coronária também terem esta arritmia.
A particularidade da conjugação da fibrilhação auricular com a intervenção coronária e implantação de stent é o facto de nos obrigar a uma alteração da terapêutica antitrombótica. A fibrilhação auricular necessita de anticoagulantes para a prevenção das embolias (em particular do AVC cardioembólico), enquanto que para evitar a trombose dos stents coronários precisamos dos antiagregantes plaquetares.
Medicar os doentes com fibrilhação auricular e stent coronário com anticoagulação e antiagregantes plaquetários é uma necessidade para prevenir estes eventos isquémicos, mas o preço a pagar é um maior número de complicações de hemorrágicas. Alcançar este equilíbrio tem sido difícil.
Quais os objetivos?
AF – Nos últimos anos houve a introdução de novos anticoagulantes e de novos antiagregantes. Também surgiram estudos aleatorizados que avaliaram diferentes fármacos, doses e duração da terapêutica. Acresce ainda toda a evolução que temos tido nos stents coronários e nas técnicas de imagem intracoronária, que auxiliam a otimização dos resultados da intervenção. Isto é, temos hoje uma realidade muito diferente e com múltiplas opções.
O AFRICA pretende avaliar como é que a Cardiologia, em particular a Cardiologia de Intervenção, está a implementar a estratégia antitrombótica nestes doentes e os resultados dessas estratégias no mundo real.
Em que consiste exatamente o estudo AFRICA?
AF – É um registo prospetivo da iniciativa do investigador, da APIC mais concretamente, e com o suporte do Registo Nacional de Cardiologia de Intervenção.
Qual a população-alvo do estudo?
AF – Doentes com fibrilhação auricular não valvular e sujeitos a intervenção coronária percutânea.
Quais os centros incluídos?
AF – O estudo foi e está aberto a todos os centros de Cardiologia de Intervenção do país. É com satisfação que podemos dizer que temos 24 centros com intenção de participar, nos quais se incluem todos os centros do Serviço Nacional de Saúde e muitos dos Hospitais Privados. O estudo teve início no dia 1 de outubro e temos já o primeiro doente incluído, pelo Hospital de São Bernardo/Centro Hospitalar de Setúbal.
É um estudo inovador?
AF – É um estudo oportuno. Existe muito pouca informação sobre o que está a acontecer no mundo real e atual. Sabemos pouco sobre como os médicos estão a fazer as suas opções e os resultados para os doentes, dessas mesmas escolhas.
No nosso país há que aproveitar a união da comunidade de Cardiologia de Intervenção e o sentido de oportunidade para podermos dar um contributo significativo para a investigação a nível mundial.
O protocolo vai decorrer em Portugal e no Brasil. Porquê?
AF – Estão planeados dois braços independentes com o mesmo protocolo a ser aplicado no nosso país e no Brasil. Nos últimos anos, temos estreitado laços entre os cardiologistas de Intervenção lusófonos de ambos os lados do Atlântico, e fazer um estudo em conjunto, que nos permita conhecer a realidade de cada país, pareceu-nos uma boa forma de consolidar essa união e amizade. Permite-nos, ainda, efetuar a comparação entre dois países com sistemas de saúde distintos.
Existe algum atraso do AFRICA-Brasil, fruto da pandemia e da mudança dos órgãos dirigentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia Intervencionista, mas ainda temos o desejo e a confiança que este avance.
Que resultados espera obter?
AF – Estamos todos na expectativa sobre o que vamos encontrar. Os doentes do mundo real são diferentes dos doentes dos estudos randomizados. Está previsto um ano para inclusão dos doentes e um seguimento de um ano, pelo que os primeiros resultados são esperados para 2022.

