Eduardo Infante de Oliveira: “O Fórum de Reflexão permitiu ainda criar pontes e tomar decisões consensuais que serão determinantes para o futuro da APIC e da Cardiologia de Intervenção nacional”

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A Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) realizou um Fórum de Reflexão sobre a temática “Cardiologia de Intervenção em Portugal”, com o objetivo de discutir o presente e o futuro da cardiologia de intervenção a nível nacional.

Eduardo Infante de Oliveira fez um balanço sobre a realização deste fórum de reflexão, que contou com a participação de responsáveis de laboratórios de hemodinâmica nacionais, bem como com os coordenadores das iniciativas APIC e antigos membros dos órgãos sociais da APIC, e reforçou a importância do debate público sobre temas relevantes para o futuro da Cardiologia de Intervenção em Portugal.

O que motivou a realização este fórum de reflexão?

Eduardo Infante de Oliveira (EIO) – A necessidade de refletir de forma profunda sobre os desafios atuais e futuros da Cardiologia de Intervenção em Portugal. Os nossos encontros são habitualmente dedicados à discussão de temas com caráter clínico e/ou científico. Neste evento, o foco esteve totalmente nos aspetos organizacionais da atividade profissional e da nossa associação. Desafiámos a participar todos os coordenadores dos laboratórios de hemodinâmica nacionais, públicos e privados, os coordenados das iniciativas (SSL e VFL) e RNCI, e os atuais e antigos dirigentes da APIC. Foi um oportunidade única para procurar consensos e definir estratégias.

Aquando da escolha dos temas, quais as principais preocupações?

EIO – Tentámos identificar as principais preocupações da nossa comunidade e, por outro lado, os aspetos com maior importância para o futuro. Pretendíamos discutir temas com relevância significativa, sobre os quais poderíamos tomar decisões conjuntas e com verdadeiro impacto. Desse modo, identificámos quatro grandes temas:

  1. formação e certificação;
  2. aspectos organizacionais e laborais do tratamento da doença aguda (síndrome coronário agudo e tromboembolismo pulmonar);
  3. acessibilidade ao tratamento da doença valvular;
  4. reestruturação, financiamento e produção científica do Registo Nacional de Cardiologia de Intervenção.

Atualmente, quais consideram serem os maiores desafios dos laboratórios de hemodinâmica nacionais?

EIO – São múltiplos. Destacaria a dificuldade de manutenção e renovação das equipas e dos equipamentos e a necessidade de reestruturação dos Serviços de Cardiologia. Os laboratórios de hemodinâmica não poderão desempenhar em pleno as suas funções sem uma reorganização profunda dos serviços onde estão integrados. Terão de ser capacitados de técnicas de imagem avançada, o que implicará formação de profissionais e aquisição de equipamentos dedicados, reestruturação das unidades de cuidados intensivos, recobros e enfermarias para acomodar a crescente necessidade de intervenção em doentes valvulares e doentes complexos (ex. choque cardiogénico, tromboembolismo pulmonar) e simultaneamente a criação de processos e estruturas que facilitem a monitorização à distância e promovam internamentos de curta duração. Vivemos mais de uma década com escasso investimento nas estruturas hospitalares dedicadas ao tratamento da doença cardiovascular. A falta de meios acentuou-se relativamente ao padrão europeu. A dificuldade de acesso ao tratamento da doença valvular é particularmente preocupante e ilustra bem todas as carências que apontámos.

E oportunidades?

EIO – A evolução constante desta área de conhecimento e uma nova geração muito promissora. A inovação incessante e o acesso permanente a novos dispositivos, novas técnicas e novas indicações são o motor dos laboratórios de hemodinâmica e dos seus operadores. São o elemento motivacional preponderante. Por outro lado, temos uma nova geração de colegas com melhor preparação, maior entusiasmo e melhor capacidade e predisposição para trabalhar em equipa. Serão o garante de melhor qualidade clínica, técnica e científica. Teremos de garantir condições para que esta geração se sinta confortável e realizada.

Quais os projetos/caminhos futuros relacionados com a área da Hemodinâmica?

EIO – A intervenção estrutural continuará a expandir e provavelmente tornar-se-á na atividade preponderante dos laboratórios de hemodinâmica e alcançará os hospitais regionais / periféricos. Teremos de encontrar o caminho para que este crescimento ocorra de forma natural e com serenidade. A descentralização destas técnicas será determinante para garantir a acessibilidade e proximidade. Sem colocar em causa o devido e necessário reinvestimento nos laboratórios centrais, que terão de enfrentar novos desafios.

A expansão crescente da intervenção estrutural obrigará também a uma reestruturação dos programas de treino e certificação. A APIC convidou representantes do Colégio da Subespecialidade, da direção da Ordem dos Médicos e da EAPCI para partilharem a sua visão sobre este importante tema.

Assistiremos também a importantes mudanças no tratamento agudo. O choque cardiogénico e o tromboembolismo pulmonar obrigarão a repensar a dimensão das equipas de prevenção e a repensar a colaboração entre unidades.

Qual o balanço deste fórum de reflexão?

EIO – O fórum foi sem dúvida muito produtivo. Permitiu ouvir múltiplas perspetivas e compreender diferentes sensibilidades. Permitiu ainda criar pontes e tomar decisões consensuais que serão determinantes para o futuro da APIC e da Cardiologia de Intervenção nacional. Para ilustrar, foi possível acordar a remodelação do âmbito do RNCI, que passará a abranger a totalidade dos procedimentos diagnósticos, passando a capturar síndromes coronários agudos sem doença obstrutiva e a capturar a totalidade de avaliações de fisiologia e imagem intracoronária. Foram ainda acordados o modelo de financiamento e a regularidade de publicação de dados do RNCI.