Desnervação Renal na Hipertensão de Difícil Controlo: O Caminho para a Uniformização da Prática Clínica em Portugal

Joana Delgado Silva Fotografia

A hipertensão arterial continua a ser o fator de risco com maior prevalência e impacto cardiovascular a nível global. Apesar da vasta oferta farmacológica disponível, uma percentagem significativa de doentes não consegue atingir um controlo adequado dos valores tensionais. É precisamente perante este desafio que a desnervação renal se afirma como uma das inovações mais relevantes no tratamento da hipertensão arterial.

A acumulação de evidência científica robusta, proveniente de ensaios clínicos multicêntricos e randomizados, como os programas SPYRAL HTN e RADIANCE, demonstrou reduções consistentes e sustentadas da pressão arterial, associadas a um efeito contínuo ao longo das 24 horas, o denominado efeito always on, mantendo um perfil de segurança favorável. A desnervação renal assume-se, assim, como uma opção terapêutica complementar, não apenas nos doentes com hipertensão resistente, mas também em doentes com hipertensão não controlada, criteriosamente selecionados, particularmente quando a terapêutica farmacológica é insuficiente, mal tolerada ou quando existem dificuldades de adesão.

Contudo, a integração de uma nova opção terapêutica na prática clínica exige mais do que a sua disponibilidade técnica: requer rigor, critérios bem definidos e harmonização de práticas. Foi com esta premissa que a Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC), em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), desenvolveu e publicou recentemente, na Revista Portuguesa de Cardiologia, o primeiro consenso nacional sobre a utilização da desnervação renal.

Este documento de boas práticas representa um marco importante para a medicina cardiovascular em Portugal. O seu principal objetivo é harmonizar a abordagem a nível nacional, estabelecendo critérios claros para a seleção dos doentes, requisitos para os centros que realizam o procedimento e orientações para todo o percurso assistencial, desde a avaliação pré-procedimento, passando pelos cuidados peri-procedimento, até ao seguimento a longo prazo.

A abordagem à hipertensão arterial não pode ser feita de forma isolada. Exige uma estreita articulação entre a Cardiologia de Intervenção, a Cardiologia Clínica, a Medicina Interna, a Nefrologia e a Medicina Geral e Familiar. Apenas uma avaliação multidisciplinar permite identificar os doentes que poderão efetivamente beneficiar da intervenção e assegurar a otimização da terapêutica anti-hipertensora ao longo do seguimento.

Em Portugal, a desnervação renal é já uma realidade, disponível em diversos centros hospitalares com equipas diferenciadas. A publicação deste consenso nacional representa um passo importante na consolidação desta abordagem terapêutica no nosso país, promovendo uma implementação segura e equitativa, sustentada pela melhor evidência científica disponível.

O desafio é agora transformar a evidência em prática clínica, garantindo que a inovação chega aos doentes que dela podem beneficiar. Ao definir um percurso claro e partilhado, este consenso contribui para esse objetivo e reforça o compromisso das nossas sociedades científicas com uma abordagem responsável à inovação, ao serviço da saúde cardiovascular dos portugueses.

Artigo de Opinião de Joana Delgado Silva, Presidente da APIC