Entrevista a Jorge Guardado, coordenador da Unidade de Hemodinâmica e Intervenção Cardiovascular (UHICV) do Centro Hospitalar de Leiria/Hospital de Santo André
Jorge Guardado, coordenador da UHICV do Centro Hospitalar de Leiria/Hospital de Santo André, fala da escolha do tema “Ecografia Intracoronária – Velha Técnica para Novos Desafios”, para este Day at the Cath Lab (D@CL), que se realiza a 29 de março, no laboratório pelo qual é responsável.
Apesar de pouco utilizada, o cardiologista de intervenção afirma que esta é uma ferramenta que traz muito bons resultados e que deve ser revista e desmitificada, de forma a aumentar a sua utilização.
Qual a razão da escolha do tema “Ecografia Intracoronária – Velha Técnica para Novos Desafios”?
Jorge Guardado (JG) – Pretendemos fazer uma revisão de uma das técnicas de intervenção percutânea coronária. A ecografia intracoronária (IVUS) é uma daquelas técnicas de que dispomos, mas que os profissionais, muitas vezes, têm dificuldade em utilizar, pela sua inércia e falta de treino das equipas. Contudo, é, de facto, uma ferramenta extremamente importante, que faz sentido ser relembrada e recolocada no panorama atual da intervenção percutânea.
Então, a importância da abordagem deste tema passa, sobretudo, por essa questão de ser uma técnica esquecida?
JG – Não está completamente esquecida do ponto de vista de utilização, mas apesar do IVUS ter dado, até agora, bastantes evidências científicas na redução de eventos, nomeadamente na diminuição clara das reintervenções e na persistência de bons resultados nas intervenções percutâneas, em Portugal nos últimos 20 anos, apenas cerca de 2 por cento das angioplastias são guiadas por IVUS.
É um número muito abaixo da necessidade. Existe algum problema, algumas variáveis que estão em causa e que é necessário desmitificar, de forma a reatualizar as equipas na utilização do IVUS, que é extremamente útil para guiar e para melhorar a qualidade da intervenção percutânea.
E inovações na área, existem?
JG – As inovações tecnológicas são pequenas. Existem diversos dispositivos para obter a imagem por ecografia intracoronária, mas, na verdade, o que existe e está extremamente bem solidificado é a evidência científica de ensaios, que demonstra que a utilização é benéfica na maior parte das angioplastias complexas que temos.
Saiu há pouco tempo, em janeiro passado, no JACC, uma análise de dois grandes ensaios internacionais, que mostra que até existe uma redução da mortalidade. Portanto, não estamos a falar apenas da melhoria dos resultados técnicos e das reintervenções que estes doentes têm. Estamos também a falar de uma melhoria na sobrevida dos doentes, que são tratados com angioplastia complexa e guiados por imagem, nomeadamente IVUS.
Os maiores desafios também se prendem com o facto de não ser tão utilizado quanto desejável?
JG – Sim, os desafios são, sobretudo, fazer com que as equipas adotem essa rotina e aprendam a realizar as intervenções com esta técnica, que, muitas vezes, é entendida como uma “perda de tempo”, no sentido em que as pessoas têm de estar treinadas e habituadas a utilizar, interpretar e dirigir a estratégia da intervenção, sem que isso altere de forma significativa a dinâmica, nem a duração dos procedimentos.
O IVUS é um ganho de condição e de melhoria da intervenção, mas isso só se adquire se as pessoas estiverem, realmente, preparadas, treinadas e habituadas, utilizando a técnica como uma amiga e não uma inimiga no laboratório.
A UHICV do Centro Hospitalar de Leiria – Hospital de Santo André tem muita experiência neste tipo de intervenções?
JG – Sim, em Portugal devemos estar no topo da utilização. Tal como já referi, o registo mostra que o IVUS tem uma utilização média de 2 por cento por ano, nos últimos 20 anos. Nós estamos a utilizá-la em cerca de 9,5 por cento das angioplastias, nos últimos 3 anos, mas usamos também o OCT, pelo que devemos rondar os 15 por cento de angioplastias guiadas por imagem, nomeadamente a complexa.
É um orgulho liderar uma equipa que utiliza as técnicas adequadas para melhorar a performance e os resultados clínicos da Intervenção Coronária Percutânea. Isto não é algo do momento, também eu tive treino de IVUS, num laboratório nacional que já praticava bastante na altura, por isso acabo por transcrever e transmitir esta dinâmica aqui em Leiria. Os médicos e os técnicos deste laboratório são todos autónomos e capazes de realizar e guiar todas as angioplastias por IVUS.
Quais as suas expectativas para este Day at the Cath Lab?
JG – Este D@CL tem um ponto adicional em relação ao que tem sido habitual. Vamos ter, em simultâneo, casos clínicos e um modelo de simulação, que vai concorrer concomitantemente. Isto vai dar-nos uma dupla capacidade de ter as pessoas connosco, ou seja, vamos poder ter mais participantes do que o habitual. Vão estar distribuídas de forma intermitente, entre o modelo de simulação, fora da sala, e os casos clínicos. Também, vamos ter sessões teóricas, uma revista sobre os casos que já fizemos e pedimos para quem vem ter connosco trazer os seus próprios casos e dúvidas para este dia.
As expectativas são as melhores. Esperamos que seja um dia bom, em que os participantes que não têm experiência possam perceber que a eco não é nenhum “bicho papão”, mas sim uma ferramenta que, apesar de difícil de utilizar, nos ajuda.
Para os que já têm experiência e que já utilizam, esperemos que seja um dia interessante, porque vamos ter casos muito complexos, que vão permitir a abrangência completa desde o diagnóstico da imagem intracoronária, até à otimização das angioplastias que vamos fazer nesses três doentes.
Vai ser um dia muito interessante e que vai, com certeza, dar frutos para todos aqueles que estão connosco.
É coordenador do Laboratório de Hemodinâmica há cerca de três anos. Quais têm sido os seus principais objetivos?
JG – Sou coordenador do laboratório desde janeiro de 2019, ou seja, tenho três anos e três meses de coordenação, mas estou em Leiria, na equipa anterior, desde 2011. Tenho 11 anos de Laboratório de Hemodinâmica de Leiria e este trabalho de coordenação é, também, um seguimento do que já fazia anteriormente.
O trabalho anterior estava centrado no “outsourcing”, em termos de equipa médica com todos os operadores a deterem uma experiência elevada e reconhecimento no país. Com a mudança de estratégia e formato do Laboratório, estou a coordenar uma equipa interna muito mais jovem, alguns operadores acabaram mesmo de fazer o seu fellowship em Cardiologia de Intervenção no passado recente.
É um desafio conseguir solidificar e fazer com que cresçam de uma forma adequada, com treino, capacidade, segurança e eficiência. Este é um grande desafio, que passa por manter a segurança e uma, cada vez, maior eficiência das equipas, tendo em conta toda a complexidade e abrangência da área coronária.
O segundo desafio é conseguir dotar – é um processo contínuo – este Laboratório com as armas logísticas necessárias, do ponto de vista material e de “devices”, de forma a termos todas as soluções possíveis para conseguirmos dar resposta aos casos que possamos ter.
Tem sido um trabalho árduo, uma vez que todos sabemos que existe uma dificuldade enorme, sobretudo nos centros mais periféricos, de ter o seu portefólio material e os “devices” adequados para a grande parte das situações muito complexas. Neste contexto, temos desenvolvido um trabalho denso.
O terceiro desafio, é conseguir que esta sala se mantenha dentro das normas e das exigências nacionais, no sentido dos números, da eficiência e do trabalho que se deve fazer na Cardiologia de Intervenção Coronária.
Há ainda um quarto desafio, que é conseguir treinar pessoas a nível desta área da intervenção coronária percutânea, uma vez que não temos acesso à intervenção estrutural em Leiria. Portanto, se há algo que podemos fazer é o bem pelas coronárias; e tentar melhorar as equipas e trazer outros profissionais para aprender e para se formarem. De facto, Leiria pode ser um centro de referência nesta matéria.
Por fim, pretendo que esta equipa consiga aceder, logo que existam condições internas e externas, à intervenção estrutural, nomeadamente à válvula aórtica percutânea, que será o grande desafio, no futuro, depois de consolidados todos os anteriores.
Como é constituída da equipa?
JG – Neste momento, somos quatro médicos, todos com subespecialidade. Eu sou o coordenador e temos mais três médicos: a Fátima Saraiva, o Pedro Sousa e o Francisco Soares, todos jovens. O Francisco Soares e a Fátima Saraiva fizeram o treino e a formação em Coimbra, o Pedro Sousa fez em Santa Cruz.
Temos esta mais-valia de ter profissionais que nos trazem as realidades diferentes de onde se formam, havendo a possibilidade de fazermos uma mescla das experiências de cada um. Eu formei-me no Hospital Garcia da Orta e também, aporto algumas diferenças e, em conjunto, melhoramos o que estamos a fazer.
Temos quatro técnicos e quatro enfermeiros, mas é um problema, pois deveríamos ter mais recursos, tanto no que respeita aos técnicos, como aos enfermeiros. As dificuldades são imensas, mas tentamos sempre ultrapassá-las e fazer com que as coisas aconteçam.
Infelizmente, não temos ainda um fellowship acreditado, para formação pós-graduada e do internato complementar de Cardiologia, mas estamos a aguardar que o Colégio da Ordem dos Médicos de Cardiologia nos possa a dar essa acreditação. Já nos fizeram uma visita e já tiraram todas as características do nosso laboratório, de forma que os nossos internos possam fazer o seu treino connosco, durante a especialidade. Estamos a aguardar.
Qual o número de intervenções feitas em 2021?
JG – Antes da situação pandémica, os nossos números oscilavam, estando perto das 600 angioplastias. Tivemos até um ano bastante bom, em que chegámos perto das 700. Com a pandemia e com todas as circunstâncias a si inerentes reduzimos, neste momento os valores estão entre as 550 e 600 angioplastias por ano.
Projetos futuros?
JG – Temos um programa bastante interessante de angioplastia complexa ligada ao tratamento da doença coronária calcificada com aterectomia rotacional e as técnicas dedicadas ao tratamento do cálcio.
É uma área em que estamos bastante fortes, do ponto de vista do treino da equipa, e que pretendemos que venha a dar frutos. Gostaríamos de chegar a níveis de formação e de impacto nessa área a nível nacional. Estamos a tentar ter uma abrangência maior.
Na angioplastia estamos também de forma complementar, bastante fortes nos dispositivos de imagem, para ajudar a otimizar os resultados e na avaliação fisiológica das lesões.
Outro desafio é tentar fazer com que tenhamos mais referenciação exterior, nomeadamente dos doentes urgentes e emergentes. Já estamos com uma ligação ao Médio Tejo e à Covilhã, ou seja, temos tido a possibilidade destes Hospitais contarem connosco para o tratamento dos doentes da via verde coronária, e mesmo não estando esta conexão prevista no Quadro de Referenciação Nacional das Doenças Cardiovasculares, pela nossa proximidade e capacidade, têm entrado em contacto connosco e respondemos sempre que possível positivamente.
Portanto, temos como objetivo ter uma solidificação maior em relação às nossas áreas de fronteira geográfica, de forma a conseguirmos colocar o número das angioplastias acima dos 600. Este é também um objetivo em termos de consolidação dos números e da atividade do serviço.
Temos, também, a ideia de virmos a ter mais Registos e participar em Ensaios. Estamos abertos a vir a ter capacidade para investigação científica.

